Sou só uma parte do que já fui. Ás vezes, parece que me falta o ar. E o coração bate sem parar! Parece o de um cavalo! Há noite, tenho calafrios, ora me tapo, ora me destapo... o meu marido irrita-se. Por vezes, vou na rua e, por qualquer motivo minúsculo, as lágrimas começam a rolar. O que vale é que ando sempre de óculos escuros. No comboio, se fechar os olhos, assaltam-me memórias passadas de momentos que não voltarei a viver: bons e maus.
De manhã é quando menos dói. A loucura da manhã em casa, todos no wc, depois cada um a comer qualquer coisa rápida, pois o relógio não perdoa! Não há tempo para dores ou lembranças.
A partir da tarde é que tudo se complica: o cansaço do meio dia já passado, a saudade dos homens lá de casa, o stress do que fazer para o jantar, a roupa para estender, dar banho ao Diogo, tratar da gata, and so on, and so on.... Já sabem.
Quando chego à cama, lá para a meia-noite, programo o despertar, telemóvel no silêncio, livro à cabeceira em que pego mas logo largo para conversar com um anjinho que me acompanha há alguns meses. Corrijo: ele não me responde, por isso não converso com ele. Falo, pergunto, enraiveço-me, choro convulsivamente por não obter qualquer resposta ou sinal! E, por fim, exausta de tanto chorar... tento aninhar-me com uma gatinha de peluche companheira do anjinho e... adormeço... a poder de medicamentos.
Perdi a minha Querida Mãe em Abril deste ano e desde aí que sou só uma parte do que já fui.
Anita